sexta-feira, 8 de junho de 2012

NÃO NASCEMOS PRONTOS! (AINDA BEM!)


Não nascemos prontos!
  
O sempre surpreendente Guimarães Rosa dizia: “o animal satisfeito dorme”.
Por trás dessa aparente obviedade está um dos mais fundos alertas contra o risco de cairmos na monotonia existencial, na redundância afetiva e na indigência intelectual.
O que o escritor tão bem percebeu é que a condição humana perde substância e energia vital toda vez que se sente plenamente confortável com a maneira como as coisas já estão, rendendo-se à sedução do repouso e imobilizando-se na acomodação.
 A advertência é preciosa:
não esquecer que a satisfação conclui, encerra, termina; 
a satisfação não deixa margem para a continuidade, para o prosseguimento,
para a persistência, para o desdobramento.
A satisfação acalma, limita, amortece.

Por isso, quando alguém diz “fiquei muito satisfeito com você” ou “estou muito satisfeita com teu trabalho”, é assustador.
O que se quer dizer com isso?
Que nada mais de mim se deseja?
Que o ponto atual é meu limite e, portanto, minha possibilidade?
Que de mim nada mais além se pode esperar?
Que está bom como está?

Assim seria apavorante; passaria a idéia de que desse jeito já basta.

Ora, o agradável é quando alguém diz: “teu trabalho (ou carinho, ou comida, ou aula, ou texto, ou música etc.) é bom, fiquei muito insatisfeito e, portanto, quero mais, quero continuar, quero conhecer outras coisas
Um bom filme não é exatamente aquele que, quando termina,
 ficamos insatisfeitos, parados, olhando, quietos, para a tela, 
enquanto passam os letreiros, desejando que não cesse?
 Um bom livro não é aquele que, quando encerramos a leitura, 
o deixamos um pouco apoiado no colo, absortos e distantes,
 pensando que não poderia terminar?
 Uma boa festa, um bom jogo, um bom passeio,
 uma boa cerimônia não é aquela que queremos que se prolongue?

Com a vida de cada um e de cada uma também tem de ser assim; afinal de contas,
não nascemos prontos e acabados.
Ainda bem, pois estar satisfeito consigo mesmo é considerar-se terminado e 
constrangido ao possível da condição do momento.

Quando crianças (só as crianças?), muitas vezes, diante da tensão provocada por algum desafio que exigia esforço (estudar, treinar, emagrecer etc.) ficávamos preocupados e irritados, sonhando e pensando: por que a gente já não nasce pronto, sabendo todas as coisas?
Bela e ingênua perspectiva.
É fundamental não nascermos sabendo 
e nem prontos;
o ser que nasce sabendo não terá novidades, só reiterações.
Somos seres de insatisfação e precisamos ter nisso alguma dose de ambição; todavia, ambição é diferente de ganância, dado que o ambicioso quer mais e melhor, enquanto que o ganancioso quer só para si próprio.

Nascer sabendo é uma limitação porque obriga a apenas repetir e, nunca, a criar, inovar, refazer, modificar.
Quanto mais se nasce pronto, mais refém do que já se sabe e, portanto, do passado; aprender sempre é o que mais impede que nos tornemos prisioneiros de situações que, por serem inéditas, não saberíamos enfrentar.
Diante dessa realidade, é absurdo acreditar na idéia de que uma pessoa, quanto mais vive, mais velha fica;
para que alguém quanto mais vivesse mais velho ficasse, teria de ter nascido pronto e ir se gastando...
Isso não ocorre com gente, e sim com fogão, sapato, geladeira.
Gente não nasce pronta e vai se gastando; gente nasce não-pronta,
 e vai se fazendo.
Eu, no ano que estamos, sou a minha mais nova edição (revista e, às vezes, um pouco ampliada); o mais velho de mim (se é o tempo a medida) está no meu passado e não no presente.

Demora um pouco para entender tudo isso; aliás, como falou o mesmo Guimarães,
 “não convém fazer escândalo de começo; 
só aos poucos é que o escuro é claro”...
.................Mário Cortella

Um comentário:

  1. Voce, Cortella e Guimaraes Rosa se superaram!
    Mais do que perfeito!
    Bj Sandra
    http://projetandopessoas.blogspot.com//

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